Segunda Infância (3-6 anos) – Desenvolvimento Físico e Motor
Introdução
A segunda infância, especificamente entre os 3 e 6 anos, é um período de transformações significativas no desenvolvimento físico e motor das crianças. Essas mudanças são caracterizadas por um intenso e dinâmico processo de desenvolvimento físico. Este engloba alterações notáveis no crescimento corporal, maturação cerebral, aquisição e refinamento de habilidades motoras, além de padrões e distúrbios de sono específicos desta fase.
Desenvolvimento Físico e Crescimento Corporal
Por volta dos 3 anos, a silhueta das crianças começa a mudar, destacando-se uma aparência mais delgada e atlética (1). O tronco, os braços e as pernas tornam-se mais compridos, enquanto a cabeça, que ainda é relativamente grande, harmoniza-se progressivamente com o restante do corpo em crescimento (1).
Aproximadamente aos 3 anos, a criança “média” pesa cerca de 15,4 kg. Essas transformações na aparência externa refletem um desenvolvimento interno paralelo. Tanto meninos quanto meninas podem crescer aproximadamente 5-13 cm por ano e ganhar de 1,8 a 2,7 kg anualmente durante a segunda infância (1).
A ossificação acelera, com a cartilagem se transformando em tecido ósseo mais rapidamente. Os ossos se tornam mais rígidos, fornecendo uma estrutura mais firme e proteção aos órgãos internos. (1)
Desenvolvimento Cerebral
Aos 3 anos de idade, o cérebro já alcança aproximadamente 90% do peso adulto. Entre os 3 e os 6 anos, o crescimento mais rápido ocorre nas áreas frontais, essenciais para a regulação do planejamento e do estabelecimento de metas. A densidade sináptica no córtex pré-frontal atinge seu pico por volta dos 4 anos de idade. Aos 6 anos, o volume cerebral atinge cerca de 90% do seu volume máximo. Dos 6 aos 11 anos, observa-se um crescimento acelerado em áreas associadas ao pensamento associativo, à linguagem e às relações espaciais. (1)
Desenvolvimento Motor e Atividade Lúdica
Entre 3 e 6 anos, as crianças fazem grandes avanços nas habilidades motoras (1). As crianças exibem uma melhora notável nas habilidades motoras grossas, que envolvem grandes grupos musculares, como correr, saltar, pular e jogar bola. A coordenação motora desenvolvida na segunda infância estabelece a base para a prática de esportes, dança e outras atividades que frequentemente se iniciam na terceira infância, sendo um preditor da participação em atividades esportivas.(1) No entanto, alguns autores sugerem que crianças com menos de 6 anos raramente estão prontas para participar de esportes organizados (1).
Nessa fase, o desenvolvimento físico é otimizado por brincadeiras ativas e não estruturadas, como os jogos de “faz de conta” (1). O mundo da criança é predominantemente mágico, e esses jogos são altamente relevantes para o seu desenvolvimento (1). Além dos aspectos físicos, o jogo simbólico ajuda a expressar desejos, temores, esperanças e impulsos agressivos. As brincadeiras com outras crianças e a fantasia ensinam os papéis sociais (1).
À medida que se desenvolvem fisicamente, as crianças conseguem coordenar sua vontade com a capacidade de realizar ações, como utilizar uma tesoura ou andar de triciclo (1).
O desenvolvimento de habilidades motoras ocorre por meio da combinação contínua de capacidades preexistentes com aquelas em aquisição, gerando novas capacidades mais complexas, denominadas sistemas de ação. A aptidão motora é influenciada por fatores genéticos e pela oportunidade de aprendizado e prática, tendendo a ser um traço relativamente estável ao longo do tempo. (1)
Lateralidade Manual
Uma característica marcante dessa etapa é a preferência pelo uso das mãos, ou seja, a definição da dominância manual (direita ou esquerda). (1)
A lateralidade manual, definida como a preferência pelo uso de uma das mãos, geralmente se manifesta por volta dos 3 anos de idade. Devido à dominância do hemisfério cerebral esquerdo, que controla o lado direito do corpo, aproximadamente 90% das pessoas demonstram preferência pela mão direita. Observa-se que meninos são mais propensos a serem canhotos do que meninas. (1)
Padrões e Distúrbios do Sono
Padrões de Sono
Aos 5 anos de idade, a maioria das crianças dorme em média cerca de 11 horas por noite e tipicamente abandona os cochilos diurnos. (1)
Distúrbios do Sono
Cerca de um terço dos pais ou cuidadores de crianças de 1 a 5 anos relatam a ocorrência de algum distúrbio do sono em seus filhos. Estes distúrbios podem resultar da ativação acidental do sistema de controle motor cerebral, de um despertar incompleto de fases profundas do sono, ou podem ser precipitados por respiração desordenada ou agitação das pernas. Muitas vezes, estão associados à ansiedade de separação, anormalidades nasais e sobrepeso. Na maioria dos casos, são eventos ocasionais e autolimitados. Problemas persistentes, no entanto, podem sinalizar a necessidade de investigação para um transtorno emocional, psicológico ou neurológico. Fatores como cólicas, temperamento difícil, nascimento prematuro e ritmo circadiano alterado têm sido propostos como mecanismos subjacentes ao início do sono desordenado. (1)
Os distúrbios do sono possíveis incluem: terrores noturnos, caminhar e falar durante o sono (sonambulismo e sonilóquio) e pesadelos. (1)
- Terrores noturnos: Apresentam pico de incidência por volta de 1,5 ano, são comuns entre 2,5 e 4 anos e têm frequência decrescente subsequente. (1)
- Sonambulismo e Sonilóquio: São comportamentos relativamente comuns na segunda e terceira infâncias. Geralmente são inofensivos e sua frequência diminui com o avanço da idade. (1)
- Características Comuns: O sonambulismo, o sonilóquio e os terrores noturnos ocorrem durante o sono de ondas lentas e são mais prevalentes em condições de privação de sono, febre, uso de medicamentos ou ambiente ruidoso. Durante esses eventos, as crianças tipicamente demonstram confusão e não responsividade a estímulos externos. Alguns pesquisadores sugerem que esses eventos são manifestações distintas de um distúrbio fundamental comum. (1)
- Pesadelos: São comuns na segunda infância e estão correlacionados a temperamento difícil, alta ansiedade geral e práticas parentais que promovem a dependência na hora de dormir.
- Pesadelos frequentes ou persistentes, sobretudo aqueles que geram medo ou ansiedade na vigília, podem indicar estresse excessivo e estão correlacionados a problemas emocionais, de atenção e de conduta. (1)
Enurese
A maioria das crianças adquire o controle esfincteriano diurno e noturno entre 3 e 5 anos. No entanto, a enurese, definida como a micção involuntária e repetida durante a noite em crianças com idade suficiente para o controle esfincteriano, não é incomum. A enurese apresenta um componente genético sugerido pela ocorrência familiar, possivelmente em combinação com maturação motora lenta, apneia do sono, alergias ou controle comportamental deficiente. É fundamental tranquilizar a criança (e os pais) sobre a comunidade e a benignidade da enurese. Casos persistentes são tratados comumente com hormônio antidiurético ou com o uso de alarme noturno. (1)
Manejo da Rotina de Sono
Recomenda-se a adoção de uma rotina de sono regular e tranquila, com duração aproximada de 20 minutos de atividades de baixa estimulação, como leitura, canções de ninar ou conversas calmas. (1)
Práticas a serem evitadas:
- Exposição a programas de televisão assustadores ou em volume elevado. (1)
- Brincadeiras que causem estimulação excessiva antes de dormir. (1)
- Alimentar ou balançar a criança na hora de dormir. (1)
- Ceder a solicitações adicionais (ex: “só mais uma” história, copo de água, ida ao banheiro). (1)
Práticas que podem ajudar:
- Uma luz noturna pode ser mantida acesa, se proporcionar conforto à criança. (1)
- Oferecer recompensas (ex: adesivos, elogios) por bom comportamento na hora de dormir. (1)
- Ajustar a hora de dormir para um momento ligeiramente mais tardio pode ser benéfico, visto que a tentativa de fazer a criança dormir muito cedo é uma causa frequente de distúrbios do sono. (1)
Saúde e Segurança
Obesidade
A obesidade e o sobrepeso representam um problema de saúde sério em crianças em idade escolar. Há uma maior prevalência de obesidade em crianças oriundas de famílias com nível socioeconômico mais baixo. Embora haja uma predisposição hereditária, fatores ambientais são considerados os principais impulsionadores da epidemia de obesidade. A prevenção nos primeiros anos de vida, período em que o ganho de peso excessivo geralmente se inicia, é crítica, dado o sucesso limitado do tratamento a longo prazo, especialmente quando tardio. Três fatores são considerados importantes na prevenção da obesidade: (1)
- Refeição noturna regular em família. (1)
- Quantidade adequada de sono. (1)
- Tempo de tela (televisão) inferior a 2 horas diárias. Cada hora adicional de televisão aumenta a probabilidade de obesidade aos 30 anos em 7%, possivelmente devido à substituição de atividades físicas. (1)
Subnutrição
Algumas crianças podem apresentar peso normal para a idade, mas são mais baixas do que o esperado, podendo ter deficiências físicas e cognitivas. Este quadro é de interrupção do crescimento (stunting), uma forma de desnutrição resultante de fome crônica e persistente. A subnutrição é uma causa subjacente em cerca de um terço das mortes globais em menores de 5 anos, com o Sul da Ásia apresentando o nível mais alto de prevalência. (1)
Alergias Alimentares
Noventa por cento das alergias alimentares são atribuídas a oito alimentos: leite, ovos, nozes, amendoim, peixe, soja, trigo e frutos do mar. A prevalência de alergias alimentares é maior em crianças do que em adultos, e a maioria das crianças as supera. Estudos recentes indicam um aumento na prevalência de alergias alimentares em crianças e adolescentes nos últimos 30 anos. Fatores como mudanças na dieta, processamento de alimentos, momento da introdução alimentar e redução da vitamina D (devido à menor exposição solar) têm sido sugeridos como contribuintes para este aumento. (1)
Saúde Bucal
Aos 3 anos, todos os dentes primários (de leite) estão irrompidos, e os dentes permanentes, que se iniciam por volta dos 6 anos, estão em desenvolvimento. A interrupção da sucção digital nesta idade minimiza o risco de afetar os dentes permanentes. A cárie na segunda infância é comumente resultante do consumo excessivo de sucos e leite adoçados, em conjunto com cuidados odontológicos insuficientes. Um dos piores impactos é observado em crianças que dormem com mamadeira contendo líquidos açucarados, expondo os dentes ao açúcar por longos períodos. O flúor é um mineral essencial para a manutenção e solidificação óssea. Em baixas concentrações, sua administração tópica (cremes dentais, enxaguantes, géis) ou sistêmica (suplementos, água de abastecimento) é comprovadamente eficaz. (1)
Mortalidade e Lesões Acidentais
Acidentes constituem a principal causa de morte em crianças pequenas. A maioria das mortes por lesões em crianças em idade escolar ocorre no ambiente domiciliar (incêndios, afogamento em banheiras, sufocamento, intoxicação ou quedas). Acidentes automobilísticos são a causa mais comum de morte acidental em crianças com mais de 4 anos. Recomenda-se o uso de assentos infantis voltados para a frente, com cinto de segurança (arreios), para crianças de 4 anos até que atinjam os limites de peso ou altura do assento. Posteriormente, assentos de elevação devem ser utilizados para posicionar o cinto de segurança adequadamente, até que a criança tenha o tamanho suficiente para usar o cinto veicular corretamente. Airbags, projetados para adultos, aumentam o risco de lesões fatais para crianças menores de 13 anos no banco da frente. (1)
Aquisição de Linguagem na Segunda Infância
Paralelamente ao desenvolvimento físico e motor, a aquisição da linguagem também avança significativamente, com um maior repertório de palavras e o início da leitura (1).
Referências Bibliográficas
- PAPALIA, D. E.; MARTORELL, G. Desenvolvimento Humano. 14. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022. v. 1.