Tiamina (Vitamina B1): Funções, Metabolismo e Implicações Clínicas


Tiamina (Vitamina B1): Funções, Metabolismo e Implicações Clínicas


Introdução

A tiamina, também conhecida como vitamina B1, fator antiberibéri, aneurina ou fator antineurítico, é uma vitamina hidrossolúvel essencial para diversas funções metabólicas e neurais. Sua participação é crucial no metabolismo de carboidratos, e sua deficiência pode levar a síndromes graves que afetam principalmente os sistemas nervoso e cardiovascular.


Recomendações Nutricionais e Fontes Alimentares

As Recomendações de Ingestão Dietética (RDA) para a tiamina são:

  • Homens adultos: 1,2 mg/dia.
  • Mulheres adultas: 1,1 mg/dia.
  • Gestantes e Lactantes: 1,4 mg/dia.

Não há registros de toxicidade associados à ingestão de tiamina.

A tiamina está amplamente distribuída nos alimentos, embora na maioria das vezes em baixas quantidades (2). As principais fontes alimentares incluem:

  • Carne suína.
  • Ovo.
  • Castanha-do-brasil, amendoim, semente de gergelim, chocolate meio amargo, castanha de caju.
  • Suco de laranja.Os grãos integrais, apesar de não serem as fontes mais ricas em termos absolutos, representam uma importante contribuição para a ingestão diária de tiamina (2). Estudos sobre dietas brasileiras geralmente não apontam deficiências dessa vitamina (2).

Indivíduos sob terapia renal (hemodiálise ou diálise peritoneal) e aqueles com síndrome de má absorção necessitam de uma ingestão diária aumentada de tiamina (2).


Absorção, Biodisponibilidade e Metabolismo

A tiamina apresenta a menor biodisponibilidade entre as vitaminas do complexo B (1). No entanto, o risco de deficiência é considerado muito baixo e geralmente associado a dietas extremamente restritivas (1).

A absorção da tiamina pelos alimentos ocorre na sua forma livre ou como fosfato de tiamina, sendo este último hidrolisado por fosfatases intestinais (2). A tiamina livre é absorvida por um processo ativo e independente de sódio, principalmente no jejuno e duodeno, com uma taxa menor no restante do intestino delgado (2, 3). Este sistema de transporte é saturável em baixas concentrações (cerca de 2 µmol/L) e é dependente de adenosina trifosfatase, o que limita a quantidade de tiamina que pode ser absorvida (2). Em altas concentrações, ocorre alguma absorção passiva, mas com menor contribuição total (2).

O álcool pode interferir na absorção ativa da tiamina, sem afetar a difusão passiva (2). No alcoolismo crônico, a absorção da tiamina é prejudicada pela inibição da ATPase dependente de sódio e potássio na membrana basolateral, que é responsável pelo efluxo da vitamina (2).

A tiamina é instável, hidrossolúvel e termolábil, o que pode reduzir sua biodisponibilidade dependendo do modo de preparo e cozimento dos alimentos (2). Perdas significativas podem ocorrer durante o processamento, como na lavagem do arroz (pré-cozimento) e durante o cozimento (2). Por outro lado, a ingestão de frutas cítricas aumenta a biodisponibilidade da tiamina devido ao alto teor de ácido cítrico e ascórbico (2).

A presença de tiaminases e antagonistas da tiamina também pode diminuir a biodisponibilidade da vitamina B1 (2). Enzimas tiaminolíticas são encontradas em alimentos e microrganismos. Em populações com ingestão de tiamina baixa ou limítrofe, a colonização do trato gastrointestinal por microrganismos tiaminolíticos pode ser um fator contribuinte para o desenvolvimento do beribéri (2). Polifenóis, como o ácido tânico do chá e a noz-de-areca, também estão relacionados à deficiência (2).


Exames Laboratoriais para Avaliação do Status da Tiamina

O conteúdo total de tiamina no organismo é de aproximadamente 30 mg (2). A tiamina apresenta uma meia-vida de 9 a 18 dias, com cerca de 1 mg sendo degradado diariamente nos tecidos (2).

Diversos métodos são empregados para avaliar o status da vitamina B1, incluindo:

  • Medição da tiamina urinária.
  • Concentração de tiamina total no sangue ou soro.
  • Medição da atividade da transcetolase eritrocitária (considerado o padrão-ouro) (2).

Em indivíduos com dieta rica em carboidratos, a deficiência de tiamina leva ao aumento das concentrações plasmáticas de lactato e piruvato, que podem culminar em acidose lática potencialmente fatal (2). Portanto, o aumento de lactato e piruvato no plasma após uma dose-teste de glicose pode ser utilizado como um indicador do estado nutricional de tiamina, embora não seja um exame específico, pois outras condições também podem causar acidose metabólica (2). A tiamina no sangue total não é um indicador sensível do estado nutricional (2).

A ativação da apotranscetolase nos eritrócitos pela adição in vitro de tiamina difosfato tem se tornado o índice mais aceito e amplamente utilizado para avaliar o estado nutricional de tiamina (2). No entanto, a apotranscetolase é instável, tanto in vitro quanto in vivo, o que pode dificultar a interpretação dos resultados (2). Coeficientes de ativação > 1,25 são indicativos de deficiência, enquanto < 1,15 são considerados adequados em relação ao estado nutricional (2).


Deficiência de Tiamina

A manifestação da deficiência de tiamina pode levar entre dois e três meses (2). Inicialmente, os sintomas são leves, como insônia, nervosismo, irritação, fadiga, perda de apetite e energia (2). Contudo, podem evoluir para manifestações mais graves, incluindo parestesia, edema de membros inferiores, dificuldade respiratória e cardiopatia (2).

A deficiência pode ser detectada no sangue pelo aparecimento de grandes quantidades de ácido pirúvico, ácido cetoglutárico e ácido cítrico, devido à disfunção do metabolismo de carboidratos (2).

Os principais fatores de risco para a deficiência de tiamina incluem:

  • Desnutrição (2).
  • Síndrome de realimentação (2).
  • Cirurgias gastrointestinais (2).
  • Alcoolismo (2).

Uma alta taxa de deficiência de tiamina tem sido relatada após cirurgias bariátricas, particularmente as associadas ao bypass gastrointestinal (2). A deficiência afeta de forma mais intensa e rápida os sistemas nervoso e cardiovascular, podendo ser rapidamente fatal se não corrigida (2). Pode resultar em três síndromes distintas:

  • Neurite crônica periférica (2).
  • Beribéri (2).
  • Encefalopatia de Wernicke-Korsakoff (2).

Em geral, a deficiência aguda está mais relacionada às lesões do sistema nervoso central, como na síndrome de Wernicke-Korsakoff (2). O beribéri seco (doença não edematosa, mas com degradação muscular) está ligado a uma deficiência mais prolongada e presumivelmente menos grave, geralmente associada a uma baixa ingestão alimentar (2).

Beribéri

É a doença clássica associada à deficiência de tiamina, afetando o sistema nervoso periférico (2). Embora praticamente erradicada em muitas regiões, ainda ocorre em populações vulneráveis como refugiados e comunidades restritas (2). Pode ou não estar associada à insuficiência cardíaca e edema. Pode se desenvolver de forma aguda perniciosa (fulminante), onde a insuficiência cardíaca e as anormalidades metabólicas predominam, com pouca evidência de neurite periférica (2).

Encefalopatia de Wernicke-Korsakoff

Uma condição psiquiátrica que responde à tiamina, associada especialmente ao alcoolismo ou abuso de narcóticos (2). É mais comum em países desenvolvidos (2).


Funções no Organismo

A tiamina desempenha um papel fundamental no metabolismo de carboidratos e na função neural (2). Em combinação com o fósforo, forma a coenzima tiamina pirofosfato (TPP), que atua como uma cocarboxilase (2). Essa forma é essencial para a descarboxilação oxidativa do piruvato, formando acetato e acetil coenzima A, um componente crucial da via do ciclo de Krebs (2). A TPP também é necessária em outros processos metabólicos de carboidratos, gorduras e proteínas; no entanto, os efeitos da deficiência de tiamina estão mais fortemente ligados ao metabolismo cerebral dos carboidratos (2).

Devido às suas funções no sistema nervoso central, a tiamina é conhecida como vitamina antineurítica (2). É também utilizada no tratamento da acidose metabólica que pode ocorrer em pacientes submetidos à nutrição parenteral (2).

Outras funções importantes da vitamina B1 incluem:

  • Permite a síntese de lipídios a partir de carboidratos.
  • Estimula o apetite.
  • Regula a função intestinal.
  • Promove a transmissão de impulsos nervosos.
  • Diminui o consumo de vitamina C.

Implicações Clínicas Específicas

Alcoolismo

Etilistas crônicos têm uma demanda elevada de vitamina B1, pois ela é utilizada na metabolização hepática do etanol (informação adicional). O álcool aumenta a demanda de vitaminas do complexo B no organismo, além de interferir no processo de absorção gastrointestinal (2).

Depressão

Embora escassos, alguns estudos encontraram uma associação entre a deficiência de vitamina B1 e sintomas depressivos em adultos e idosos (2).

HIV

O desenvolvimento da doença em pacientes infectados com o HIV tem sido relacionado ao estado nutricional do indivíduo em relação à tiamina (2). Em casos de deficiência grave, esses pacientes frequentemente apresentam encefalopatia de Wernicke e beribéri (2). A suplementação de tiamina e piridoxina tem sido associada à melhora na sobrevida desses pacientes (2).

Desempenho esportivo:

A suplementação de tiamina (B1) não parece melhorar a capacidade de exercício em atletas com ingestão dietética normal. (4)


Suplementação e Toxicidade

A suplementação com L-triptofano, um aminoácido essencial, é utilizada no tratamento de estresse, hiperatividade, depressão e distúrbios do sono (informação adicional). Em aplicações farmacêuticas, é um ingrediente ativo em antidepressivos e hipnóticos. Na nutrição clínica, é um componente indispensável em infusões de aminoácidos e em dietas enterais e orais. A dosagem usual é de 100 a 300 mg ao dia (informação adicional).

Por ser uma vitamina hidrossolúvel, o excesso de tiamina é excretado na urina, e não há evidências de toxicidade por tiamina oral (2). No entanto, doses administradas por via parenteral podem ser associadas a depressão respiratória em animais e choque anafilático em seres humanos (2). Podem ocorrer efeitos colaterais como irritabilidade, insônia, taquicardia e fraqueza (2). O NOAEL (No Observed Adverse Effect Level) da tiamina é de 50 mg/dia. O LOAEL (Lowest Observed Adverse Effect Level) ainda não foi estabelecido (2).


Referências Bibliográficas

  1. LANCHA JR, A. H.; ROGERI, P. S.; PEREIRA-LANCHA, L. O. Suplementação Nutricional no Esporte. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019. 266 p.
  2. COZZOLINO, S. Biodisponibilidade de Nutrientes. 6. ed. São Paulo: Manole, 2020. 934 p.
  3. JEUKENDRUP, A. E.; GLEESON, M. Nutrição no Esporte – Diretrizes Nutricionais e Bioquímica e Fisiologia do Exercício. 3. ed. São Paulo: Manole, 2021. 559 p.
  4. JAGIM, A. R. et al. International Society of Sports Nutrition position stand: energy drinks and energy shots. Journal of the International Society of Sports Nutrition, v. 20, n. 1, p. 2171314, 2023.

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