Imagem corporal – Efeitos e percepções durante a gestação
Introdução
A gestação representa um período de intensas transformações biopsicossociais, no qual o corpo feminino transcende a esfera individual para tornar-se objeto de expectativas e julgamentos públicos. Este cenário de vulnerabilidade é atravessado por pressões estéticas contemporâneas e heranças psíquicas familiares, exigindo da gestante uma complexa reestruturação de sua imagem corporal. A compreensão desse processo demanda uma análise das influências socioculturais, dos mecanismos narcísicos e da história singular da mulher (1).
O Narcisismo Contemporâneo e a Gestação
No contexto da hipermodernidade, caracterizada pela hiperestimulação e desregulação de limites, os indivíduos são constantemente instados a performar de acordo com expectativas externas. Sob a ótica sociológica, o corpo na sociedade de consumo assume a função de produto, onde o sucesso pessoal é intrinsecamente vinculado à aparência física. Para a mulher, o corpo ocupa um lugar central nessa lógica, e a gestação introduz variáveis que rompem com os ideais de beleza vigentes. Alterações como ganho ponderal e mudanças tegumentares são frequentemente percebidas como rupturas na imagem corporal almejada, gerando tensão entre o desejo da maternidade e a resistência às marcas biológicas do processo (1).
Percepção Corporal: Primíparas versus Multíparas
Estudos comparativos indicam que a experiência gestacional prévia influencia significativamente a autopercepção. Observa-se que mulheres em sua primeira gestação (primíparas) manifestam maior preocupação com as modificações corporais e níveis elevados de ansiedade em relação às mudanças biopsicossociais. Em contrapartida, em gestações subsequentes, a preocupação com a estética tende a tornar-se secundária, uma vez que a mulher já vivenciou o ciclo de adaptação e as transformações do puerpério (1).
Representações Simbólicas e Medos Gestacionais
A relação com a imagem corporal durante a gravidez é frequentemente habitada por temores relacionados à perda da atratividade, como o surgimento de estrias e flacidez. Tais preocupações impulsionam esforços intensos de preservação estética, refletindo a valorização sociocultural da juventude e da magreza. Contudo, o período também pode ser vivenciado como um espaço de liberdade, onde o distanciamento dos padrões rígidos de controle de peso é socialmente tolerado. É fundamental destacar que esses sentimentos raramente emergem apenas na gravidez; geralmente, são amplificações de pressões sociais internalizadas previamente (1).
O Peso das Vozes Externas e a Prática Clínica
Embora orientações médicas e nutricionais sejam essenciais para o desfecho obstétrico favorável, a imposição de metas irreais pode fragmentar a relação da mulher com o próprio corpo. É necessário que o suporte profissional respeite a singularidade da experiência gestacional, evitando que o cuidado técnico reproduza cobranças culturais excessivas que possam interferir na construção do vínculo materno-fetal (1).
O Corpo Herdado e a Transmissão Transgeracional
A autoimagem da gestante é moldada por vínculos afetivos estabelecidos desde a infância, sendo a figura materna um eixo central de identificação. Durante a gravidez, elementos da história familiar emergem, levando a mulher a reviver, de forma consciente ou inconsciente, as experiências de sua própria mãe. Evidências sugerem que a história de vida prévia e a transmissão transgeracional exercem influência direta na aceitação da gravidez e nas práticas de autocuidado, como a alimentação (1).
A Reconstrução da Percepção Corporal
A gestação oferece uma oportunidade singular para a ressignificação da imagem corporal. Ao afastar-se da rigidez dos padrões externos, a mulher pode desenvolver uma relação mais harmoniosa com suas novas formas, integrando as mudanças físicas às dimensões emocionais e simbólicas. O papel dos profissionais de saúde deve ser o de sustentar um ambiente que acolha as ambivalências desse período, permitindo que a gestante integre sua identidade de mulher e futura mãe em um corpo em constante transformação (1).
Referências Bibliográficas:
- KACHANI, Adriana Trejger; JACOBSOHN, Patricia Gipsztejn (Org.). Imagem corporal na prática clínica. Barueri: Manole, 2025.